23.5.06

Fart@ de piropos?


Um grupo de activistas norte-americanas fartas dos piropos que ouviam nas ruas de Nova Iorque lançou o Holla Back NYC que encoraja as mulheres a fotografar os homens que as assediaram e enviar as suas fotografias para serem publicadas online.


A Women's eNews publicou uma reportagem sobre esta iniciativa, que pode ser lida aqui.

Também nós estamos fart@s dos piropos que se ouvem todos os dias nas ruas portuguesas.
Que tal se fizéssemos o mesmo por cá?
a

49 comentários:

JoeFingers disse...

Tenho um comentário: sou homem, nem machista nem "ista" coisa nenhuma (sempre detestei rótulos, mas há quem goste); faz-me confusão esta "caça/denúncia/exposição pública". O piropo é uma coisa detestável e grosseira, que nunca mandei nem penso mandar. Presumo que seja incómodo para quem o suporta regularmente. Falo sem conhecimento de causa, porque ou sou muito feio ou as mulheres portuguesas são educadíssimas. No dia em que a má educação e a grosseria foram extintas, o piropo deixará de existir. Mas... há mulheres que apreciam porque as faz sentir-se desejadas. Raramente confessam (muito menos a homens) mas cheguei a ouvir várias confissões mais ou menos envergonhadas, por muito que isso vos custe a engolir. Outros, ainda, poderiam achar que esta "caça ao piropo" é de ressabiadas que nunca ouviram nenhum, mas isso já não sou eu a falar...

sabine disse...

Desculpem, eu acho este genero de femenismo um exagero! Não gosto do 8 (passividade total) mas tb nao gosto deste 80!

Yoda disse...

Curioso, Sabine....

Os piropos (palavra empregue certamente de forma "gentil" para definir aquilo que as mulheres da Terra ouvirão na rua - no meu planeta não dizemos piropos na rua uns aos outros) são, pensaria eu, uma invasão insuportável da liberdade individual do outro. Mesmo que, por hipótese, alguns até só sejam mesmo piropos e com graça, o que será sempre relativa para duas pessoas e até mesmo para uma pessoa em diferentes dias...

Seria engraçado saber como reagiriam os homens se ouvissem das mulheres, na rua, "piropos" que os "objectivassem" ou os insultassem....

E lembro-me rapidamente de mts possibilidades que o decoro - e o equilibro da Força - me impedem de dizer aqui :-)

Considerar que ser contra os piropos é exagero é o mesmo que dizer que as mulheres, mt maioritariamenmte as suas vítimas, tem que andar no espçao público com "ouvidos de mercador"; sem pre com cuidados extra para além do normal "andar na rua"...

Como saberão, até com cuidados na forma de vestir pq:

1) se não querem ouvi-los deverão ter cuidado e "decoro"

2) se não têm cuidado nem "decoro" (com a roupa) é pq querem ouvi-los....

Ora este problema não se põe aos membros do vosso outro sexo, não é verdade? E se não se põe este problema aos homens (e não põe, de facto) então não se pode pôr às mulheres....

May the Force be with you.

Anónimo disse...

Meninas tem concorrência directa aqui: http://feministactual.blogspot.com/

Unam-se mulheres desta país!

eduardo disse...

boa! de facto, o espaço público é um palco importante na construção quotidiana das fronteiras de género, cujo policiamento inclui essas lamentáveis performances (leia-se assédio). parece-me uma iniciativa brilhante para expor e subverter os privilégios de impunidade de que os homens gozam em face da visibilidade máxima como objectos/invisibilidade máxima como pessoas das mulheres no espaço público e mediático (tokenism), e que inclui também, claro, a publicidade de que têm falado aqui.
mas o caso do photoblog também mostra que alguns homens estão definitivamente perdidos para a causa da igualdade de género, creio eu. numa entrevista dada em Abril deste ano à New York Magazine, Dan Hoyt, o homem que assediou uma mulher no metro de nova iorque e que foi por ela fotografado e posteriormente colocado na internet (o incidente que deu origem à iniciativa Holla Back NYC), tendo sido condenado por isso, teve isto para declarar: caso tivesse "conhecido" a sua vítima noutras circunstâncias, ""You know, she’d go, 'That guy’s pretty cool. He’s got this restaurant, and he’s fun.' She’d probably want to go out with me."

SempreFeministas disse...

Não se trata de concorrência mas de aliança, esperamos. É um blog interessante que coincide conosco em alguns aspectos. Visitem: Feministactual.blogspot.com.

ms. niceperson disse...

Acho que Yoda e eduardo levantaram questões muito importantes.

Os homens não mandam piropos na rua apenas porque são mal educados mas também porque sabem que o podem fazer sem que daí resultem grandes consequências. É a tal sensação de "impunidade" de que falou o eduardo no seu comentário.

Numa reportagem sobre o site Holla Back, a ABC News entrevistou alguns homens que têm por hábito mandar piropos e um deles disse "It's just part of being a man I guess" (podem ler o resto da entrevista em http://abcnews.go.com/GMA/Technology/story?id=1715494)
Para este e muitos outros homens, mandar piropos é algo perfeitamente normal, é uma das coisas que os "homens" fazem, uma brincadeira inofensiva que até devia fazer com que as mulheres se sentissem mais felizes. E de facto o discurso dominante na nossa sociedade é o de que "há mulheres que apreciam porque as faz sentir-se desejadas", que as únicas mulheres que não gostam deles são "ressabiadas que nunca ouviram nenhum" e que as mulheres deviam simplesmente aceitar isso e não fazer grandes "ondas".

Até pode haver algumas mulheres que gostem destes piropos e que o admitam nas suas "confissões mais ou menos envergonhadas", JoeFingers - mas muitas de nós não gostam mesmo nada e não é justo que tenhamos de aturar este tipo de assédio só porque sim.

Há algum tempo, estava dentro do meu carro, à tarde, na Cidade Universitária e chegou um homem que se encostou à janela de passageir@, tirou o pénis para fora das calças e começou a masturbar-se ali, mesmo ao meu lado. Apesar de ser uma hora de movimento naquela zona, não estava ninguém nas redondezas. Tive bastante medo e não me senti minimamente "desejada"- antes pelo contrário. Numa conversa com amigas, apercebi-me que quase todas tinham histórias deste tipo para contar... Por que não denunciar ou expôr homens como este? Ele não parece ter tido qualquer problema em "se expôr" para mim!

Não me apetece ter de esperar mais alguns anos (décadas? séculos?) até ao "dia em que a má educação e a grosseria forem extintas e o piropo deixará de existir" - acho que temos de fazer qualquer coisa para demonstrar (seja por via de iniciativas como estas, seja de outras formas) que não é "normal" e "aceitável" e "legítimo" que este tipo de coisas continuem a acontecer todos os dias, nas ruas de todo o país.

Anónimo disse...

"Ó BOAZONA!!! FIU FIUUU! SÓ NÃO TENHO PELOS NA LÍNGUA PORQUE TU NÃO QUERES!"
Ok, isto não é um piropo! :-) Mas foi só para exemplificar.


Mas e que tal se em vez de protestarem contra os piropos dos homens, as mulheres começassem a atirar piropos aos homens? hein? Não era mais salutar?

Fica a sugestão.

pedro

Anónimo disse...

"Ó BOAZONA!!! FIU FIUUU! SÓ NÃO TENHO PELOS NA LÍNGUA PORQUE TU NÃO QUERES!"
Ok, isto não é um piropo! :-) Mas foi só para exemplificar.


Mas e que tal se em vez de protestarem contra os piropos dos homens, as mulheres começassem a atirar piropos aos homens? hein? Não era mais salutar?

Fica a sugestão.

pedro

Anónimo disse...

hoje deu nas noticias que portugal é um dos primeiros paises (num estudo da UE) com maior numero de caso de violencia domestica e policial... 1 em cada 3 mulheres é vitima... por isso nao venham cá dizer que piropo é gentil e mais nao sei o quê. Piropos são sim falta de consciencia social e desprezo nas mulheres. Talvez as mulheres não mandem piropos aos homens porque elogios a serio fazemos é à personalidade das pessoas e nunca ao seu pacote...

Anónimo disse...

Pessoalmente detesto piropos. Agora ja consigo fazer os tais ouvidos de mercador, mas na minha adolescencia eu andava mais uns quilometros para evitar todas as zonas de obra. Na altura eu era super-timida e, de repente numa rua, comecar uma algazarra e sentir varios olhos sobre mim era algo psicologicamente violento. Mas mesmo agora acho a coisa do mais primitivo. Perfeitos estranhos a fazerem espectaculo comigo sem a minha autorizacao. De repente, passo do meu passeio descontraido para um burburinho de obscenidades.

Acham justo que perfeitos desconhecidos possam transtornar assim a vida de uma pessoa e toda a gente ache tudo muito normal?

Relativamente a varios episodios de homens a masturbar-se ao meu lado e a mostrarem os penis eu nem falo. Podia escrever um livro.

Quanto ao senhor que diz para nos mandarmos piropos: desde quando a ma educacao se paga com ma educacao? Nunca ouviu dizer: nao facas aos outros o que nao queres que te facam a ti?

Anónimo disse...

Em grande: http://kontratempos.blogspot.com

Anónimo disse...

Não me parece que seja apenas uma questão de boa educação que impedirá as mulheres de mandarem piropos aos homens. Mas talvez esteja enganado...

Ou então poder-se-á entrar aqui numa visão simplista do mundo separado em duas metades: Homens X Mulheres (por ordem alfabética)... ou se preferirem: Mulheres X Homens. Em que uma metade possui mais qualidades ou mais defeitos que os outra metade só pelo simples facto de terem nascido homens ou mulheres.

Talvez estejamos a confundir e a misturar piropos com má educação ou falta de consideração pelos outros. Não será?

PIROPO:
do Cast. piropo
s. m.,
galanteio;
frase lisonjeira dirigida a alguém, especialmente a mulheres.

António Guterres

Anónimo disse...

O piropo pode não ser uma forma de assédio explícita, pode restringir-se a uma mera sugestão a que temos o direito de responder ou ignorar. Mas não o será também um olhar mais lânguido que lançamos, um cruzar de penas mais sensual...? O piropo é verbaizado, portanto mais constrangedor, na medida em que é percepcionado por terceiros e susceptível de nos envergonhar publicamente. Mas admitamos meninas que, por veze, temos que esconder um sorriso inevitável. Alguns têm piada...
Um bom piropo exige algum requinte, a questão é que quem o tem normalmente opta por outras tácticas de sedução bem menos explícitas. E isso pode ser bom ou mau (quando não entendemos pode ser frustrante), depende dos gostos, ainda que os gostos se discutam...
CC

Barriguita disse...

Sim, uma coisa é o piropo, outra coisa são as bocas trolha-trovadorescas.
Concordo com o Pedro, responder da mesma moeda é deixa-los desarmados. Mas é também estar a descer ao mesmo nível. As bocas trolha-trovadorescas despertam os meus piores instintos, e muitas vezes dou por mim a ser mal-educada ou a dizer coisas como "e também dizes isso à tua netinha adolescente?!". Outras, faço só cara de má, finjo que sou surda e continuo a andar. Mas custa.

Miss Piggy disse...

Car@s Antonio Guterres e CC,
Ao ler os vossos comentários, questiono-me: será que leram a notícia a que se refere o post?
Não se trata de frases lisongeiras ou de uma mera táctica de sedução, mas sim de assédio ("street harassement"), tema muito delicado de abordar, pois há sempre alguém para defender as boas intenções de quem assedia, bem como há sempre alguém para acusar a vítima do assédio (calças muito justinhas, saia demasiado curta, decote demasiado fundo, por aí fora!). A verdade é que demasiadas vezes a desculpa do elogio à beleza feminina é utilizada para distribuir alguns "olá querida, coisa doce", etc., mesmo quando estamos a sair do ginásio em fato de treino e cheias de suor!? Saliente-se o tom paternalista subjacente!

Pedro, responder aos homens com a mesma moeda, para quê? Legitimar comportamentos machistas que não aprovo? Não me parece que seja um ponto pé de saída, constituíria sim um sinal de que podem prosseguir, pois elas até acham piada!
Para além do mais, certos homens também começam a ser alvo de piropos ("belo cuzinho"). Conheço alguns que se sentiram constrangidos nesta situação (e não por ser percepcionada por terceiros mas porque se viram objectificados).

Anónimo disse...

mas se não querem descer ao mesmo nível deles o que é qeu as minhas amigas pretendem fazer? lutar pela proibição dos piropos nas ruas de lisboa? isso para mim seria uma medida bem mais horrível do que o pior dos piropos que as sras podem receber.


joão Ramos

Anónimo disse...

Melhor seria que não andassem a sujar as ruas de lisboa com stencils feministas que depois vão colocar mais homens atiradores de piropos para os remover das paredes (e pagos pelo contribuinte).

depois não se queixem.


João Ramos

Inês Meneses disse...

Há aqui qualquer coisa que me escapa... Um piropo é uma agressão?! Das duas uma, ou é desejado e/ou bem feito, e o assunto está resolvido, ou é feio e desagradável, ignora-se e o assunto morre à mesma. Ou estão a dizer-me que as mulheres são tão frágeis que é uma enorme ameaça ouvir um piropo (mesmo que desagradável, repito)? Se se sentem ameaçadas com isso, vão ter uma vida bem difícil, e não é por serem mulheres: é por serem auto-indulgentes com este género de "mariquice". Quem quer respeito e igualdade não se pinta de princesa frágil.

Como mulher, não são os piropos que me ameaçam, são estas atitudes ridículas que alimentam os piores estereótipos.

Querem problemas feministas com que se preocuparem? Tomem lá: http://dn.sapo.pt/2006/05/24/sociedade/violencia_domestica_preocupa_amnisti.html

Inês Meneses disse...

...acresce ainda que a ideia de tentar proibir os outros de fazer ou dizer o que lhes der na real gana na rua (mesmo que achemos parvo ou pior), ou a de "expôr publicamente os culpados" espelham uma curiosa forma de ver a vida em democracia. Mas como é para proteger as mulheres, coitadinhas, que precisam de ser defendidas... ai, ai...

Assobiador disse...

Acho bem! E já agora juntavam a foto da vítima para ver se há algum fundamento...

Anónimo disse...

Só por humor, era engraçado que costumizarem o vosso blog, alterando "comentários passaram por aqui" para "piropos"! :)

solidário com a vossa causa,
Pedro (não o mesmo de acima)

JoeFingers disse...

Devo estar noutro comprimento de onda... faz algum sentido dizer-se que se é "a favor" ou "contra" coisas deste tipo? e fará falar-se em "denúncia" ou em "proibição"? estamos todos loucos?

E gostava que me explicassem como é que os piropos são "falta de consciência social". Para mim, é apenas falta de educação, disse acima e repito (e estou a falar de piropos daqueles que a gente sabe, não estou a falar de elogios ou, no lado oposto do espectro, de exibicionismo, ora bolas).

Anónimo disse...

Joefingers, flor:
Se fosses minha, regava-te todos os dias.

Vanessa disse...

Seria uma fabulosa ideia. E uma fabulosa iniciativa a promover - o mais amplamente possível. Porque podia ser um modo de mudar o sentido aos rumos... Lia há meses no blog Gengibre com Lilás que a identificação do agressor pode provocar neste constrangimento (no exemplo dado, tratava-se de um olhar nos olhos - o piropo é anónimo, surge, flutua, abate a "vitima" mas nunca há um elemento único e responsável). E portanto, acho que seria uma boa ideia.

Li por alto alguns comentários. Tomando-os por referência, penso que o post não tenha sido criado com a intenção de dar inicio a um decreto de lei sobre piropos, proibições, permissões - seria, sim, num sentido de dizer "acontece x, estamos cansadas, queremos fazer com que pare. Como poder agir?" e daí surge uma sugestão imediata que, quem sabe, pode funcionar.

Como alguém menciona, de facto acredito que passe muito pela educação das pessoas em questão (dos "agressores", no caso"), acredito que seja reflexo da macro-estrutura que submerge Portugal - um profundo sexismo (e profunda homofobia, misoginia...); também podemos ter uma mesa redonda e falar no assunto, discutindo hipóteses sobre a mudança a médio-longo prazo. E penso que o que se está a tentar sugerir neste breve post (aliás, penso que o que está a tentar sugerir todo este movimento feminista do Colectivo) é um modo, um pequeno e quotidiano modo, que poderá ajudar a mudar. As pequenas coisas podem, efectivamente, produzir pequenos efeitos... ou grandes efeitos.

Em último lugar: lamentavelmente existe alguma idea flutuante referente às mulheres que se sentem valorizadas pelos piropos. Nunca falei com nenhuma que o manifestasse (muito pelo contrário), e até posso supor que existam, longe de mim duvidar dos dados de senso-comum trazidos para aqui! Seja como for, as mulheres que conheço sentem-se enojadas pelas palavras, pelas frases, pelos convites obscenos, pelos apalpões, pelos "roçares" nos transportes públicos: amigos e amigas,é tão simples quanto isto, trata-se de assédio sexual. Onde é que é uma forma de feminismo extremista?

São mulheres, como eu, como esta, ela e aquela que estamos a dizer: chega! Quero caminhar na rua sem inseguranças, sem receios. Quero usar os decotes com que me sinto bem, ou usar a maquilhagem que me conforta, que me apraz. Quero ver-me bem vestida, sentir-me bem comigo. E quero caminhar por aí, fazer os meus percusos pendulares, minhas caminhadas, sem o desalento. Apenas isso.

Trata-se de uma questão de falta de civismo (por parte do "agressor"), claramente, um problema com raizes muito mais profundas que o momento do piropo em si, ou do modo como se sente esse "agressor", ou do modo como se sentirá a "vitima" - contudo nem é isso que está em discussão: é o acto, o pequeno acto de tomar posição no momento -uma possibilidade de estratégia.

Se estou a ser idealista? Usualmente procuro saber até onde vai o meu idealismo, por isso, Colectivo, contem comigo numa iniciativa deste teor.

Abraços a todos/as

Joe Fingers disse...

...para depois me depenares lentamente como a um malmequer, quando me apanhasses crescidinho, né?

eduardo disse...

sim, essa de dizer que as mulheres, no fundo, no fundo, “gostam” de ouvir piropos, ou seja, de ser assediadas é velha demais (já se diz e se escreve isso praí desde a altura do masculiníssimo império romano). que ainda haja homens a acreditarem nisso é um sintoma muito mau daquilo que anda por algumas cabeças acerca daquilo que as mulheres gostam e querem. repito: os piropos e o assédio (será que é pertinente discutir níveis de assédio, ou destrinçar entre assédios maus e assédios menos maus, ou talvez mais polidos?), para além de constituírem défices de civismo e de educação, são sinais de relações assimétricas de poder que retiram a sua força precisamente de passarem por coisas, enfim, “naturais”, “inofensivas”, “desejáveis” até. desejáveis para os egos masculinos mais tradicionais? certamente… para as mulheres? sinceramente, não acredito, e por aquilo que tenho lido por aqui, ainda fico mais convencido.

Taxista Feminista disse...

Este parece ser um tema polémico! Os meus parabéns pela qualidade e pertinência de alguns dos comentários que antecedem o meu.

Alguém criticou a iniciativa Holla Back em nome da garantia da "democracia" nas ruas... Curioso é este entendimento de democracia - poder dizer-se o que se quer às pessoas que passam na rua, mesmo que isso as faça sentir desrespeitadas, humilhadas ou chateadas! Ok... Talvez então também seja legítimo dirigir comentários racistas, homofóbicos ou discriminatórios a quem passa, tudo em nome da democracia nas ruas! Por que não gritar, por exemplo, "oh ceguinho, não vês por onde andas?!" ou "oh chinoca, vai-me buscar um chau min!".

É que muito do assédio sexual que eu vejo por ai, quando circulo no meu táxi, não é apenas uma forma "elogiosa" de demonstrar apreço por certos atributos físicos de uma dada mulher - é também dizer que ela é, acima de tudo o resto, um objecto sexual, que é para isso que ela serve. Tal como achar que os chineses, por exemplo, só servem para fazer chau-min e vender bugigangas baratas.

Comentaram que chamar a atenção para o carácter ofensivo de muito deste assédio (verbal ou físico) é "pintar-de de princesa frágil" ou "fazer-se de coitadinhas".

Bem... aparentemente, na perspectiva de cert@s comentadores, quem é frágil e coitadinho são os homens que assediam. É que pelos vistos vocês acham que não se pode pedir (exigir?) a estes homens, coitadinhos, que parem de assediar e de meter a mão em corpo alheio, porque eles, pobrezinhos, ficarão com a sua frágil masculinidade irremediavelmente magoada, os desgraçados. Não se pode esperar deles, coitadinhos, um comportamento respeitador nas ruas (como o de um/a cidadã/o "normal"), porque, pobrezinhos, é assim que eles são e não podem mudar, os infelizes! É melhor as mulheres fazerem "ouvidos de mercador" porque eles, infelizes, não têm culpa, coitadinhos, não sabem o que fazem! E portanto, desgraçados, mais vale não os contrariar, erguer a cabeça e seguir em frente! Ai, ai!

Deixo-vos esta imagem da autoria da Ilona Granet, uma artista que em 1986 produziu uma série de trabalhos sobre esta questão, Será assim tão radical, fundamentalista e extremista esperar que alguns homens tentem controlar os seus "instintos animais" e tornar as ruas em lugares mais agradáveis para tod@s?

Anónimo disse...

... sim Joe, Malmequer, poderia depenar-te lentamente, ao ritmo da clássica ladainha... Não fosse ter já a certeza que nos queres bem...

Inês Meneses disse...

Cara taxista: justamente, ninguém deve ser tratado como "coitadinho", somos todos cidadãos responsáveis pelos nossos actos. Não meninos da escola primária a fazer queixinhas uns dos outros. Se o "menino" que está no andaime se "porta mal", isso fica com ele; mas não nos tira nenhum bocado. Se nos sentirmos muito mal (embora continue, pessoalmente, a achar pateta que se leve isso a sério), podemos responder, não podemos? Como adultas a falar com adultos.
E já agora: o conceito de assédio sexual implica que o/a assediador/a tem uma posição de poder, de vantagem sobre o/a assediado/a, que lhe permite impor alguma coisa. O que é que me estão a dizer, que em plena rua os homens têm algum poder acrescido sobre as mulheres? É que, nesse caso, falem por vocês; eu não me sinto diminuída ou fragilizada no espaço público por ser mulher, e portanto não me sinto assediada. E realmente acho que nos pintamos de "princesas frágeis" se achamos que não conseguimos lidar com as chamadas "bocas porcas" (porque é disso que se fala aqui, não de piropos).

Shyznogud disse...

ó fofa, agora mandava-te um piropo(porq merecido!) mas ainda era sujeita a exposição pública.

Juro q me tentei manter caladinha, mas esta está entalada desde há horas e eu cá qdo fico com coisas entaladas, ai, até se me sobem uns calores. Portantus aqui vai ela: expliquem essa coisa dos "instintos animais" dos homens, pliiiize. Como "se eu fosse uma criança de 4 anos" de preferência. (Strange, agora, de repente lembrei-me da Peta...quase me deu vontade de me tornar activista e tudo)

Zé Fanan disse...

Gostava de perguntar a estas campeãs da liberdade porque é que retiraram o comentário que escrevi ontem à noite, sem sequer me darem uma satisfação. Porque dizia umas verdades desagradáveis? Não gostaram do que lá estava, não foi? Por isso apagaram-no. Viva a liberdade de expressão!!!

eduardo disse...

não resisto a aplaudir… ó zé fanan, a tua caricatura divertiu-me imenso! aquele ardente arrazoado de neomacho lusitano!...
adequado (e ilustrativo) interlúdio tragicómico a um debate sobre misoginia e preconceito homofóbico.

sabem, as reacções que algumas pessoas estão a ter a este blogue e às ideias do Colectivo fazem-me lembrar aquela velha história do reaccionário (era o Hans Yost?) que dizia (adaptando): “quando oiço falar em feminismo puxo logo da pistola”. (metaforizem como entenderem)

Shyznogud disse...

Bem, o apagar do comentário de uma caricatura (pelo q percebo das suas palavras era disso q se trataria) só prova que quem acusou os responsáveis deste blog de falta de humor estava cobertinho de razão... e a falta de humor deveria ser listada como Pecado Capital!!

CharlotteS disse...

Shyznogud, não comentes coisas que nao leste, eu por acaso li o comentario que foi apagado do ze fanan antes de o colectivo o ter apagado e acho muito bem que o tenham apagado. Aquilo era um chorrilho de comentarios sexistas e homofobicos escrito de uma maneira extremamente ordinária, tão ordinaria que até me fez impressão. Não sei qual é a tua noção de sentido de humor shyznogud, mas a minha noção de sentido de humor não inclui comentarios sexistas e muito menos comentarios homofobicos.

eduardo disse...

car@ shyznogud:
não era uma caricatura mas sim um comentário que disparava insultos em várias direcções e que não tinha qualquer tipo de pretensão a contribuir para o debate. para mim, uma boa caricatura de quem o escreveu.

sugiro ao Colectivo que façam um disclaimer sobre alguns critérios mínimos de civilidade que é necessário cumprir na caixa de comentários: já viram como estão a aparecer intenções pouco saudáveis de chacota e insulto pessoal.

Shyznogud disse...

Oh dear, eu não disse q não tinha lido, pois não? rss prontus, contra o q é da minha natureza, mando a toalha ao chão!Continuem sisudas(o)s e muito correcta(o)s até porq assim divertem as hostes. Ninguém leva a sério quem é incapaz de se rir de si mesmo nem de se auto-parodiar. Hum... porq será q me lembrei agora do célebre Jorge de Burgos?

Zé Fanan disse...

Estou esclarecido. Li as justificações e acho que já percebi. Uns bateram palmas e as autoras da censura (porque é disso que se trata) ficaram contentinhas na sombra. Nem tiveram tomates para me dizerem claramente que eliminaram o meu comentário. Cortaram-no pela calada, antes que mais alguém lesse, e suspeito que irão cortar também este.

Era apenas a minha opinião que, numa sociedade livre, vale tanto como a do Saramago ou a do cardeal patriarca. Não acho que fosse ofensivo, não tinha nenhuma asneira lá escrita. Mas a liberdade deixa aqui muito a desejar. Aqui, o Larry Flint já tinha sido cozido em banho-maria, queimado na fogueira ou crucificado, o ordinarão. Confesso que esperava uma, ao menos uma reacção que dissesse "metam lá o post do gajo, que a gente tem direito a ler, mesmo que seja um disparate". Mas até já há propostas de filtragem prévia. Que tal ressuscitarem o "exame prévio" de boa memória?

Julguei que fossem feministas, afinal percebo que são apenas de vistas curtas. Bem-aventurados os pobres de espírito, aprendi eu na catequese.

Anónimo disse...

Mas ó meu caro zéfanan,
se estás com tantos problemas, se te sentes assim tão oprimido, se achas que não se abordam aqui as verdadeiras questões pelas quais as pessoas feministas devem lutar, tens bom remédio! Já te sugeriram aqui que cries o teu próprio blogue com todas essas questões. Para além disso, haverão com certeza blogues mais ao seu agrado. O que é que te prende aqui? Protagonismo? Não tarda muito já ninguém te pode ouvir e começam a ignorar todos os teus comentários, portanto, poderias antecipar-te e fazer-nos a todos um grande favor. Quando tiveres alguma coisa interessante para partilhar com toda a gente e que contribua realmente para as discussões aqui desenvolvidas então serás bem vindo. Se vens sistematicamente para aqui dizer que o blog não presta vamos tod@s ficar a pensar que este é o único sítio onde consegues ter algum protagonismo. Mas digo-te já, não vale a pena. Não percas tempo e não nos faças a nós perder tempo.
Passe bem, meu caro.

Zé Fanan disse...

Desta vez perdi a paciência! Cambada de atrasados mentais! Meti um comentário e cortaram-mo! E toda a gente aplaude? Este último comentário anónimo, então, nem deve saber do que está a falar. Devo estar a delirar. Chega! Vão lá para o raio que vos parta.

Shyznogud disse...

Depois de tanto palavreado, e cingindo-me ao tema, houve uma pergunta q pela sua pertinência merecia, digo eu, uma resposta "O que é que me estão a dizer, que em plena rua os homens têm algum poder acrescido sobre as mulheres?"... ou não?

eduardo disse...

car@ shyznogud,
é bom ver que a crítica não impede a vontade de debater.

partindo da convicção de que existem realmente desigualdades a múltiplos níveis entre mulheres e homens (nega isso?), elas podem ser analisadas de muitas formas e em várias esferas: no trabalho (segregação por sectores de actividade, maior precariedade laboral, menores salários para profissões iguais, sub-representação em algumas profissões com maior prestígio social e recompensas económicas, etc.) e na família (distribuição não-equitativa do trabalho doméstico e da guarda das crianças, distribuição não equitativa dos problemas associados à conjugação do trabalho pago com as tarefas familiares, em muitas famílias a ameaça de exercício de violência doméstica, etc.), por exemplo.

algumas pessoas provavelmente dirão que conhecem muitas mulheres cujo caso pessoal não comprova nada disto. a questão é que o problema da desigualdade entre mulheres e homens é estrutural: relativamente aos homens, a maior parte das mulheres estão em desvantagem em todos os domínios da experiência, apenas e só devido ao facto arbitrário de terem nascido… mulheres. as diferenças (biologicamente factuais) de sexo transformam-se em desigualdades (culturalmente construídas) de género.

onde é que eu quero chegar com isto?
a questão do espaço público, no meu entendimento, não pode ser separada da noção de que as desigualdades se estendem a todos os domínios da experiência, onde são traçados limites de comportamentos adequados e não adequados para homens e mulheres, e que são avaliados de forma diferenciada: se um homem manda bocas ou piropos ou o que quer que lhe queiram chamar a uma mulher que passa na rua, isso é normal, “inofensivo”. já pensou porque é que são sempre os homens a mandarem piropos às mulheres e não o contrário? é bem visto pela generalidade das pessoas que uma mulher mande bocas ou piropos de grau variável de ordinarice a um homem em “plena rua”? com que imagem ficarão dela as pessoas que presenciem o acontecimento?
pergunte-se, como reagem os homens aos piropos lançados pelas mulheres? já presenciou isso alguma vez?

que perigos podem apresentar-se a um homem quando circula pela rua? vários, certamente, como a possibilidade de ser roubado.
e o perigo, real ou possível, de violação? não, pois não? e às mulheres?

muitos dirão horrorizados que o mero piropo, mesmo um assédiozito, vá lá, "leve", nada têm a ver com algo de tão grave e violento. aceito que sim.
agora, @ shyznogud duvida que actos como sejam as violações estejam relacionados com a convicção partilhada por muitos homens de que possuem direitos de “utilização” das mulheres que têm o azar de com eles conviver em “plena rua”? não concorda que isso estabelece uma diferença de poder pelo simples facto de que os homens não se debatem com o problema inverso?
pergunte-se: como é que se constrói essa convicção?

creio que o Colectivo tem dado algumas pistas para responder a isso, pistas que muita gente encara como insignificantes ou inócuas.

estúpido disse...

Zé Fanan:
o teu comentário, muito provavelmente, foi apagado para te proteger a ti e aos teus familiares, ou também lhes chamas isso a eles? ;)

Taxista Feminista disse...

Inês Meneses e Shyznogoud: de facto a pergunta sobre se "em plena rua os homens têm algum poder acrescido sobre as mulheres?" é pertinente...

Penso que a resposta do eduardo é muito interessante e que ele conseguiu esclarecer muito bem as várias dimensões dessa questão. Vou acrescentar apenas algumas reflexões.

A Inês escreveu que "o conceito de assédio sexual implica que o/a assediador/a tem uma posição de poder, de vantagem sobre o/a assediado/a, que lhe permite impor alguma coisa." Mas ter uma posição de poder sobre outra pessoa não significa apenas ser patrão/oa dessa pessoa, ou ter mais dinheiro do que ela, ou ter uma arma que lhe possa apontar à cabeça. Há muitas formas de poder. como certamente sabem.

Já foi aqui dito que há mulheres que não se sentem bem com o assédio sexual nas ruas (quer ele se manifeste através de piropos "inocentes", bocas mais ordinárias, apalpões ou outras coisas que tais). Estão no seu direito. E há mulheres que não se sentem negativamente afectadas por este assédio. Também estão no seu direito.

Ora, os homens que assediam sabem que há muitas mulheres que não se sentem bem ao ser assediadas - ou querem-me convencer de que todos eles estão convencidos de que elas adoram este tipo de coisa e, portanto, assediam com a melhor das intenções, para as agradar?

Portanto, se um homem sabe que ao assediar vai provavelmente fazer uma mulher sentir-se desconfortável, então está a exercer sobre ela o poder de lhe "impor alguma coisa" (usando as palavras da Inês Meneses) - impor-lhe um sentimento de desconforto, humilhação, até de medo, em algumas circunstâncias. Não penso que quem quer que seja tenha o direito de "impor" esses sentimentos a outr@s, seja nos espaços públicos, seja nos espaços privados.

E já que nos colocaram esta questão, aproveitava também para vos fazer uma pergunta. Pelos vistos vocês são mulheres que não se sentem minimamente incomodadas, receosas ou condicionadas na vossa mobilidade, segurança e conforto pelo assédio sexual na rua, nos transportes públicos, etc. Óptimo. Ainda bem.

Mas há muitas mulheres que não são como vocês e que se sentem afectadas por este tipo de coisas. Talvez porque já tenham tido experiências piores do que aquelas que vocês tiveram (as histórias que tenho ouvido a próposito deste post!), talvez porque simplesmente tenham personalidades ou atitudes perante a vida diferentes das vossas.

Ninguém vos impôs o dever de se sentirem desconfortáveis ou tristes quando são assediadas nas ruas - se preferem lidar com isso de outra forma, óptimo. Então por que é que vocês parecem querer pôr em causa a legitimidade de as outras pessoas se sentirem incomodadas? Por que é que sentem necessidade de lhes chamar "frágeis" ou "maricas"? Por que é que não respeitam que as pessoas são diferentes e tiveram experiências distintas com o assédio durante a sua vida e que portanto podem reagir de forma muito variada face ao mesmo piropo? Se vocês têm o direito de não se importar com isto, por que é que outras mulheres não têm o direito de se importar? Têm todas que ser iguaizinhas a vocês?

E já agora, deixo mais uma sugestão de um site a visitar - o do projecto Blank Noise que procura combater o assédio sexual nas ruas da Índia, dinamizando acções inovadoras em várias cidades - ainda ontem estiveram em Bangalore, Mumbai, Delhi, Hyderabad e Chennai. Vale mesmo a pena visitar.

Inês Meneses disse...

Tenho andado aqui cheia de paciência e a "dar de barato" uma série de coisas porque a "causa" (deixem passar) obviamente me interessa. Mas francamente, a estupidez, infantilidade, ignorância e má-formação são de tal grau que não há feminismo que as desculpe. Se algum dia quiserem falar para fora do vosso grupo de amigos e de quem concorda automaticamente convosco avisem. Mas sabem, quando se abrimos um blog era suposto tornarmo-nos disponíveis para conversar. Mas claro, quem não reconhece o direito dos outros existirem diferentemente na rua, não o vai fazer num blog. Entretenham-se.

Iris disse...

Inês,
Constato que deixaste comentários em vários posts, todos com o mesmo teor, que nada acrescentam ao debate, só maçam quem te lê.
Constato também que a tua vontade de dialogar (pressupõe ouvir e não só falar) é de tal ordem que desprezas as respostas aos teus comentários, continuando a insistir que ninguém te está a ligar nenhuma.
No comment!

Vanessa Sousa Dias disse...

Taxista, assumo a priori que o comentário final da Inês Meneses não te tenha molestado. Pelo que pude compreender das discussões, formaram-se posturas de incompreensão e, pessoalmente, creio que a comunicação virtual nem sempre tem a benevolência do seu lado pelas erróneas interpretações linguísticas, no entanto não me parece ser o caso. Seguindo a linha de pensamento da Iris, o diálogo implica predisposições e posturas que não estão aqui a ser seguidas. Pelo que li dos esclarecimentos da Taxista Feminista, não existe persuasão nem desvalorização das posições que a Inês pudesse encetar -existe sim uma exposição de motivos, uma procura de brechas de diálogo, de fazer ver, de fazer mostrar e de fazer compreender que não somos todas iguais [nós, "mulheres-vitimas-de-imposições-masculinas-na-via-pública"]relativamente ao que se possa passar na via pública... e que temos o direito de lidar com esses detalhes do dia-a-dia como bem nos aprouver. Não consigo adivinhar palavras de persuasão no que foi dito.

E eu estou farta - passando nas ruas lisboetas e ouvindo piropos, propostas (etc.) sabem o que sinto? Não lhes sou alheia porque oiço, não lhes sou indiferente porque repentinamente sou um par de pernas, um par de seios, um rabo - sou despersonalizada, sou um instrumento, um objecto. Não me sinto pessoa. Lamentavelmente até vivo intensamente estes momentos idiotas - é factual, creiam-me. Baixo a cabeça ou olho para além, como quem saiu do seu corpo, que se ausentou. Se sinto imposição, vantagem de um outro sobre mim?? Evidentemente que sim - vejo-me incapacitada a responder (por me sentir atónita no momento, pela irritação, e por um todo de motivos), apresso o passo, procuro assuntos na minha mente que me distraiam; Evidentemente que sim - as palavras contêm cargas de poder, são lançadas, atingem. E estas magoam-me. Fazem-me sentir pequena, rebaixada, massificada, inútil, vulgarizada.

[seis da manhã... continuo a visita posteriormente. Força Colectivo, um abraço]

Anónimo disse...

Apoio a ideia mencionada no texto, sem duvida!
E para muitos homens que falam nas roupas que vestimos vos digo, de luto da cabeça aos pés ouvi muita coisa.Depois de anos a ouvir tarados, desenvolvi uma perturbação derivada em grande parte desses insultos.

Vanessa Sousa Dias disse...

Boa noite

Mesmo que a actividade do blog tenha esmorecido um pouco ao longo dos anos, regresso hoje aqui, precisamente a este post, porque é um tema que para mim está longe de estar encerrado.
Vivo na Amadora – vivi cá praticamente toda a minha vida – e, talvez por motivos culturais, acontece-me ser abordada por pessoas do sexo masculino que iniciam conversas com o objectivo de obterem o meu contacto e de me convidarem a sair (estou a falar especificamente de imigrantes mas de segunda ou de terceira geração, portanto, portugueses mas com hábitos que não costumo reconhecer em rapazes e homens ocidentais, caucasianos, o que quiserem): começo esta mensagem desta forma porque recordo de imediato um problema que enfrentei há poucas semanas, quando subia um parque que fica perto da minha casa: fui seguida por um rapaz que não parava de me lançar piropos e que, quando me alcançou, meteu conversa comigo. Não me senti nada confortável mas tive liberdade e espaço para lhe dizer que não estava interessada e libertar-me da situação sem demais incómodos (mas admito que se esta situação se tivesse passado pelas 21h ou 22h não sei como teria reagido: repito, fui assediada, seguida; ignorei e continuou a chamar-me).

Hoje, pelo contrário, deparei-me com um episódio mais comum mas que tem, a meu ver, consequências muito mais perniciosas. Estava a passar pelo mesmo parque (que infelicidade, pelos vistos o problema da equação é o raio do parque por onde sou obrigada a passar) quando um rapaz – que estava com amigos e amigas, suponho, porque só os vi de relance – que, mesmo estando a uma distância considerável de mim, se achou no direito de gritar insultos (“ó branquela”, “ó boa”, “ó não-sei-das-quantas”, como imaginam): porque é que me irritou mais do que a situação que acima descrevo? Será porque à entrada do parque já um idiota nos seus 50 anos (gordo como um peru, com 1m40cm de altura – bem, francamente podia ter 2metros e parecer o Christopher Walken, não é por aqui que a situação se mede. Vou tentar manter imparcialidade até ao final do comentário) me tinha acabado de mandar um beijo? Já estava a fermentar uma certa irritação mas deu cabo de mim sentir o reforço da minha “objectificação”; irritou-me a impunidade; irritaram-me os gritos e a sensação de vergonha, os olhos a fugir para o lado contrário, o passo a apressar (o que faria mais? Responder? Agravar uma situação que me estava a fazer sentir tão mal? Ainda por cima perante um grupo de miúdos, de rapazes que pelas idades não teriam mais de 20 anos?). Que legitimidade têm estas pessoas para agredir outras verbalmente? O que é que acontece da próxima vez? Só me falta ser violada na porcaria do parque, porque, aparentemente, só isso é que terá gravidade suficiente e será reconhecido como incómodo, como violação de direitos, como agressão à integridade de uma pessoa.

Nunca quis viver segundo o meu género, a pensar sistematicamente no meu género, e resta-me hipótese? Tenho de ter medo por ser mulher. Não tenho os mesmos direitos que são oferecidos a alguns homens, é tão simples quanto isso, e estranha-me que alguém possa ler estes casos sem o compreender.
Há meses atrás estava numa aula e um professor, numa aula supostamente aberta e de discussão de ideias, de teorias, de cinema, decide defender que "hoje em dia as mulheres são iguais aos homens porque que vão para o Bairro Alto e que se comportam como os homens": é mesmo assim? É isso que está inculcado na cabeça da maior parte das pessoas? Enquanto não puder caminhar na rua sem ser agredida verbalmente não me sentirei nem igual, nem feliz: enquanto for tomada por um objecto em vez daquilo que sou (e, neste momento, sou alguém bastante irritado e com a sensação de que a justiça se ausentou deste mundo), e enquanto situações como esta me fizerem sentir desprezo e quase ódio – é a pior resposta, eu sei, mas momentaneamente não a consigo controlar, não consigo forçar simpatia ou forçar compreensão contra certas agressões - não me será possível sentir segura, muito menos confortável.