3.6.06

O sexo das profissões

O que fazer quando se mora em Lisboa e está uma brasa na rua?
Duas alternativas: praia (se não houver nenhum enchente de mosquitos) ou centro comercial (por causa do ar condicionado!)
Escolhi a segunda até porque precisava de encher o frigorífico.
Optei por ir ao Continente do Vasco da Gama, de forma a associar o lazer (cervejola à beira rio) ao dever (compras).

Enquanto estava a aguardar a minha vez na fila para pagar, não pude deixar de reparar no facto seguinte:
- 31 caixas abertas
- 29 empregadas
- 4 empregados,
sendo a distribuição entre os sexos inversamente proporcional quando se trata de seguranças!
O mesmo acontece no supermercado cá do bairro (Dia) : na caixa, 3 mulheres, 1 homem.
No vosso também, com certeza. Faz parte do panorama nacional, já ninguém repara neste pormenor: o sexo de quem está atrás do balcão, que varia consoante se tratar de uma loja de roupa ou de uma tasca de bairro.
A que factor atribuir esta selecção preferencial de mão-de-obra feminina nas caixas de supermercados? As mulheres têm mais jeito para arrumar as compras nos sacos? São mais rápidas? Mais sorridentes? Estão mais dispostas a aceitar ordenados baixos e a fazer turnos?

A este fenómeno, que passa despercebido à maioria das pessoas, dá-se o nome de segregação horizontal ( = "existência de ramos de actividade muito feminizados ou muito masculinizados, e uma maior concentração das mulheres em poucos ramos de actividade", definição da CIDM - Comissão para a Igualdade e Direitos das Mulheres ) A tabela que segue exemplica em números este conceito (tendo por base os sectores de actividade, não as profissões).

Gráfico "Trabalhadores/as por conta de outrem, por actividade, segundo o sexo", tirado do site da CITE - Comissão para a Igualdade no Trabalho e no Emprego :
"As mulheres predominam largamente nos sectores da saúde e acção social (87,6%), educação (73,5%) e alojamento e restauração (62,1%). Em contrapartida, entre as actividades mais masculinizadas, estão a construção (92,6%), as indústrias extractivas (91,0%), a pesca (84,5%), a electricidade, gás e água (83,2%) e os transportes, armazenagem e comunicações (77,6%)."

Disto concluo que enquanto caixeira, cabeleireira e esteticista se conjugarem no feminino e enquanto taxista, motorista e electricista se conjugarem no masculino, o feminismo será preciso!
a

18 comentários:

Yoda disse...

Boa Noite Miss Piggy,

Por acaso aqui não sei se será preciso feminismo. Ou por outra, se alguma coisa acontecerá de muito profunda apesar dele.

Sem contar com os exageros mais óbvios estou convencido que haverá sempre ptofissões genderizadas pq... sim...

Ao fim ao cabo, no limite, e para lá do Social etc, etc, os homens e as mulheres são diferentes.

Por razões que não vêm ao caso existem, em Portugal, mais raparigas nos cursos de Medicina do que rapazes.

E dentro deles há mais melhores alunas que alunos.

Assim sendo, qdo chega a altura de escolher as especialidades (e sem falar em pediatria que será fácil de jsutificar com razões sociais várias ainda que possam não "servir" de desculpa) as mulhers (portuguesas, pelo menos) mt raramente escolhem ortopedia e poucas escolhem cirurgia.

E nada as impediria. Antes pelo contrário. São mais as primieras a escolher aquilo que quiserem

Se formos para pescadora ou mineira temos logo um problema antiquíssimo de Religião/superstição à mistura que trava logo a entrada das mulheres nessa profissão. É que dá azar (dizem) a entrada de mulheres nas minas e nos barcos de pesca (para trabalhar). É claro que estas razões para estas profissões não servem de facto de desculpa mas estão um pouco para lá da questão de género....

Eyre disse...

Sobre este tema aconselho o livro "Entre a Casa e a Caixa. Um estudo sobre as trabalhadoras da linha de caixa de uma grande superfície" da socióloga Sofia Cruz

eduardo disse...

é óptimo que chamem a atenção para a segregação profissional das mulheres que, de facto, é um dos indicadores mais eloquentes da dimensão económica da desigualdade de género.

gostava porém de acrescentar uma observação.
para mim o problema nem está tanto nas profissões indicadas, todas elas mais ou menos desprovidas de recursos económicos e simbólicos, quer as "masculinas" quer as "feministas".
o verdadeiro problema político está nas blindadas posições de privilégio masculino distribuídas pelos vários pilares do poder: o económico, o político, o jurídico.
o verdadeiro problema está na masculinização exacerbada das várias profissões de exercício desses poderes: os empresários e os gestores; os ministros e os deputados; os juízes; etc.

seria excelente que começassem a aparecer mulheres taxistas (feministas?), motoristas e electricistas! agora, creio que enquanto as mulheres não começarem a ter verdadeiro acesso às profissões onde está concentrado o poder, não será expectável que a sua subordinação sistémica diminua por aí além.

abrunho disse...

yoda,

isso da medicina não tenho a certeza. Cirurgia é uma especialidade que pede extrema dedicação, dedicação essa que uma mulher que pretende ter filhos sabe que não irá poder dar. Também me lembro de um caso caricato de médicos a queixarem-se de que umas senhoras escolheram o ramo de urologia e que não podia ser, que os homens não se iam sentir confortáveis. Se não sabem a urologia trata do sistema urinário, mas também do sistema reprodutor masculino. Claro que os senhores não se lembraram de usar o mesmo raciocínio para a ginecologia e obstetrícia.

Anónimo disse...

Alguém já lembrou aqui que nalgumas profissões as mulheres tem acesso e escolhem não o usar. Se calhar o machismo não está nas profissões, está nas mulheres.

ms. niceperson disse...

Anonymous: também há profissões a que os homens têm acesso e escolhem não o usar.
Tanto homens como mulheres são educadas/os numa sociedade machista, que lhes ensina (de forma mais ou menos explícita) que certas profissões (hobbies, cores, lugares, etc, etc, etc) são para mulheres e outros são para homens. E com base nisso muitas mulheres nem se lembram de considerar certas profissões tidas como "masculinas", tal como muitos homens fogem de profissões descritas como "femininas" (onde, quem sabe, até poderiam ser muito felizes!).
O machismo não é monopólio dos homens e, como é óbvio, também está nas mulheres - faz parte da sociedade em que vivemos e está bem enraízado na nossa forma de olharmos para nós próprias/os, para as outras pessoas e até para o nosso futuro profissional.
Por isso mesmo é que é importante alertar para o modo como estes estereótipos acerca do que é feminino e do que é masculino estão presentes nas nossas vidas e podem condicionar as nossas escolhas.

radical_pt disse...

Esta máxima muito difundida socialmente de que o "machismo no fundo existe mais por culpa das mulheres" é mesmo própria do estilo de opinião que procura minimizar os problemas subjacentes à discriminação de género.
Desse ponto de vista, seria tb. mais fácil justificar todas as desigualdades sociais, com o recurso ao argumento da incapacidade do próprio em alterar a situação, por via da interiorização de um sentimento de inferioridade, como se o indivíduo integrante da sociedade não fosse apenas um elemento, mas antes o cerne de toda uma complexa estrutura...

Anónimo disse...

Radical: não falei em culpa, só disse que o problema se punha na escolha feita pelas próprias mulheres.
Niceperson: queria dizer isso mesmo. O machismo, como outros modelos dominantes, nem sempre se impõe de fora, está inculcado no modo como interagimos desde que nascemos. Nem tudo se resolve por decreto, algumas coisas dão mais trabalho, são mais complicadas do que isso.

Anabela Rocha disse...

A feminização de determinadas profissões está ligada à desvalorização, principalmente económica (mas também social), duma profissão - e a sua masculinização à sua valorização. Ora vejam lá se os homens não começaram a ser caixeiros quando o desemprego começou a aumentar, e só quando começou, havendo até locais onde são mais do que as mulheres.
E quanto às pessoas que pensam que estas divisões e devem a "características de género" diferentes, dualistas, lembro os estudos que demonstram que determinadas profissões técnico-científicas ligadas por ex. às matemáticas e informática, começaram por ser femininas e deixaram de o ser a partir do momento em que se tornaram lugar de poder (económico, social).

Yoda disse...

Em relação às Matemáticas e não só desculpará a Anabela mas está mt longe de ter razão...

Aliás nem vale a pena entrarmos por aí.... Um dia ainda hei-de fazer um post da história da mulher na Ciência...

Sabia por exemplo que a colaboraçlão cientifca da mulher do Eintein para o trabalho dele foi determinante e nem sequer consta?

Sabia tb e peço desculpa de não me lembrar do nome dele mas um dos Prémios Nóbeis mais conhecidos tudo o que publicou tb tinha o nome da mulher nos artigos e ele nem sequer na noite do Premio isso agradeceu?

Então e a cientista a quem de certa forma foi "rouibado" o trabalho sobre a estrututa do DNA que deu o Nobel ao Watson e ao Crck "roubo" esse que durante anos foi escamoteado?

A Ciência nunca nunca foi feminia. Não estou a dizer que não tinha mulheres. Mas sempre foi um mundo completamente controlados pelos homesn. e em certa medida ainda é ainda que cada vez menos. E então se formos tão atrás como Newton e assim nem vale a pena pensarmos nisso.

Anónimo disse...

Yoda desculpe-me, mas desconhece o meio científico actual, e falo de Portugal.

Anónimo disse...

há que reconhecer as vitórias quando as temos.

Yoda disse...

É-me dificil não conhecer o meio científico actual... Estou dentro dele... Precisamente na área de Ciências e Tecnologia e há mts anos...

A Anabela referiu-se ao facto de "no inicio" as áreas de Matemática e Informática serem femininas e terem deixado de ser a partir do momento em que tiverem significado económico e de poder.

Eu só referi que isso nunca aconteceu. Nunca no passado nenhuam área cientifica de Ciências Exactas e Tecnologias foi "feminina".

Não falei de hoje e mt menos de Portugal, um caso absolutamente impar, quase que no mundo, mas se quiser posso falar...

do you love me like i love you disse...

desde já apresento-me como alguém que le este blog á pressa. nao tenho internet senão por curtos espaços, por isso não vou inter-agir, senão deixar testemunho.
já trabalhei em balcões da tasca-bigode ao restaurante pintas. há tempos fui ao saldanha a um café-galeria porque um amigo me disse que precisavam de empregar alguém. imediatamente me recusaram PORQUE era mulher. oscilei por dentro, conformada que não ia obter o emprego porque já tinha PERCEBIDO, mas queria OUVIR porquê. Ora, preferiam empregar um HOMEM num café-galeria porque, sabem, IMPÕE mais respeito (mesmo tendo eu experiencia numa tasca cervejeira, seen it, done it) com a sua mera presença (independentemente do homem que seja), porque, "sabecomoequeé", algum cliente, sabe tipo uma boca malandra (por parte do nosso cliente ideal), e sabecomoequeé, por isso preferimos empregar um homem. Confus@s? não, não era um bar de alterne, era um café-galeria, aberto de dia, com bijuteria exposta, daqueles onde se vai comer um brownie e chá.

Anabela Rocha disse...

Quanto à questão das ciências: nem todas nasceram no mesmo momento histórico, o que permite que algumas tenham nascido de modo mais feminizado do que outras.
Conheço os exemplos de invisibilização do trabalho científico das mulheres que foram referidos; menos conhecidos são os exemplos de invisibilização do trabalho científico feminino quando ele foi, no nascimento de uma dada área de investigação, maioritariamente feminino em áreas que hoje são consideradas masculinas, como por exemplo a construção de computadores.
De qualquer forma, mesmo os exemplos dados demonstram o ponto que queria fazer: que não há áreas de trabalho tendencialmente femeninas ou masculinas, que há apenas uma construção social das práticas, e dos saberes, que cria essa ideologia dualista.

Anabela Rocha disse...

femininas

Anónimo disse...

Então continuemos a passar a mais que falsa ideia de que não há mulheres a fazer ciência, a ensinar ciência, com poder na ciência. Os machistas agradecem que invisibilizemos as nossas áreas de vitória.

Joe Fingers disse...

Ora aqui está o último grito do delírio feminista. Que as mulheres sejam taxistas, motoristas e electricistas e que eles arranjem unhas e ajeitem penteados. Cada mulher besuntada de betume e vestida de fato-macaco é uma vitória, cada homem de tesoura na mão ou de esfregona em riste, uma farpa no "sistema".
Não tarda, hão-de exigir que elas cuspam para o chão, digam asneirolas e mandem gandas arrotos e bufas depois de uma b'jeca ou de uma feijoada. Hão-de chegar ao nirvana feminista que é ver um blog machista a insurgir-se contra as piropas que as mulheres mandam aos homens: "ó bom! lambia-te esse rato todo! anda cá! partia-te essa verga toda!".

Taxista "conjuga-se" no feminino? em primeiro lugar, os verbos conjugam-se, os substantivos declinam-se. A língua portuguesa é unissexo e os disparates não escolhem cor, credo ou sexo. (Ai, "sexo é sexista", li algures por aqui, por isso retiro a palavra).

Vou fechar de vez a loja por aqui, vcs passaram da tontice à cretinice. Passaram-se de vez. Eu cá mudo-me para outras paragens, por exemplo, blogs femininos sem preconceitos nem censura nem falta de humor, como o womenageatrois.blogspot.com. Eu gosto de certas coisas que por lá pululam, mas gostos são gostos.

crash! (porta a fechar)