17.7.06

Os dislates do Grande Patriarca

Cavaco Silva quis demonstrar na última semana estar atento a um conjunto de problemas que afectam as mulheres e as famílias portuguesas, aproveitando em grande estilo a ocasião para debitar um conjunto de dislates que são típicos de um discurso conservador corrente relativo às relações familiares e às relações de género. Esse discurso já não me surpreende mas não deixam nunca de me incomodar os pressupostos desonestos em que assenta.

Chamou Cavaco a atenção para a praga social e económica que são as "famílias" monoparentais - pensando exclusivamente, claro está, nas mulheres que vivem sozinhas com os filhos - uma vez que os rebentos dessas famílias, desprovidos de um Pai e entregues apenas à Mãe, ficarão expostos a todo um conjunto de riscos económicos e culturais que é necessário prevenir. Segundo Cavaco, "o risco de pobreza dos menores é o dobro em famílias monoparentais do que na família natural (sic)". É portanto necessário, conclui Cavaco, não ceder à atracção irresistível e à saída "fácil" do divórcio, para bem dos filhos e para o bem último da nação. As famílias monoparentais por opção assumida da mulher ficam fora das cogitações do presidente, que nem deve conceber a possibilidade de existência de tal aberração.

O discurso de Cavaco faz tabula rasa de tudo o que se sabe hoje acerca da variedade de formas e relações familiares e do desenvolvimento harmonioso que todas elas podem, em potência, proporcionar aos filhos. No entanto, queria sobretudo contestar um argumento muitas vezes utilizado e que é falso.

Pode dizer-se que as famílias monoparentais, geralmente mãe e filho(s), estão em maior risco de pobreza do que as famílias "tradicionais", constituídas por mãe, pai e filho(s), mas isso não se deve, como fica mais ou menos implícito nos argumentos correntes, à forma ou ao modo de funcionamento das famílias monoparentais, nem sequer à incapacidade das mulheres para cuidarem adequadamente dos seus filhos sozinhas. O problema é muito mais complexo porque é em simultâneo uma questão de desigualdade de género e de desigualdade económica.

Estando as mulheres numa posição estruturalmente desvantajosa relativamente aos homens em termos de salários, e permanecendo muitas delas economicamente dependentes dos maridos, é "natural" que a falta dos recursos económicos masculinos conduza muitas vezes a situações de precariedade económica e social em famílias monoparentais, ainda para mais quando muitos homens abandonam simplesmente as suas famílias ou, em caso de divórcio, não dão qualquer apoio económico e emocional aos seus filhos.

Ora a solução para este problema não pode passar pela manutenção à força de famílias "naturais" (na acepção cavaquista) crivadas de conflitos e fonte permanente de infelicidade para quem as compõe. A solução passa, sim, pela criação de condições económicas e culturais para que as famílias monoparentais possam ser uma opção válida para as mulheres cuja família "natural" deixou de ser viável, ou que simplesmente preferem outras formas de viver a família. Para isso é preciso, entre outras coisas, pugnar pela igualdade de remunerações e contra a estigmatização cultural das famílias monoparentais.

Cavaco, claro, não perdeu a oportunidade para boicotar esses desígnios.

Realmente é preciso ter muita lata para vir falar de violência doméstica quando se advoga a conservação a todo o custo de famílias "naturais" que oferecem, muitas vezes, os piores exemplos a esse respeito.
a

2 comentários:

Machoman disse...

LERAM BEM: ZERO COMENTÁRIOS.
O feminismo não passou por aqui...

Ruiva disse...

Infelizmente as opiniões infelizes do actual PR ainda espelham uma parte da sociedade portuguesa... E o facto dele pensar assim também não me admira nada, estranho seria o contrário! Como era bom que este tipo de opiniões enquilosadas fossem apenas piadas de mau gosto!