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22.10.07

Doc do dia

"Le Papier ne Peut pas Envelopper la Braise,
hoje, às 21 horas,
na Culturgest (Grande Auditório)






Le Papier ne Peut pas Envelopper la Braise [SE]
de Rithy Panh
86´França 2006

O mais recente filme de Rithy Panh escuta um conjunto de jovens mulheres que vivem juntas na mesma casa, no centro de Phnom Penh. Todas elas têm de entregar à dona da casa o dinheiro que fazem ao venderem-se à noite aos homens que as procuram. Para o realizador cambodjano, o sinal mais evidente da falência social de um país devastado por décadas de guerra é o modo como são explorados económica e politicamente os corpos daqueles que não têm nada: os soldados mortos deixaram sozinhas crianças que se entregaram a trabalhos mal pagos ou à prostituição. "Le Papier ne Peut pas Envelopper la Braise" põe-nos em contacto com pessoas e não com personagens, contrariando através do cinema a objectificação dos seus corpos e permitindo que a sua própria voz reinvindique uma humanidade e uma individualidade que lhes é negada todos os dias.

- Barriguita

20.10.07

Doc Review: "Jesus Camp"


"Jesus Camp"
de Heidi Ewing e Rachel Grady (EUA, 2006)


Ontem vi o "Jesus Camp" de Heidi Ewing e Rachel Grady, um filme sobre uma colónia de férias de crianças evangelistas.
Propaga-se o criacionismo e como as crianças são exército de Deus. Dirigido por puritanos, que pregam e ensinam a pregar de uma forma extremamente violenta e impressionável que deixa as crianças em êxtase, medo e culpa, muito sentimento de culpa. Vemos também, como a maior parte das crianças evangelistas são ensinadas em casa (pelas mães; aliás, diz uma, "- Se Deus deu-me esta filha, eu tenho que lhe moldar a personalidade"). Os encontros desta Igreja são sempre grandes circos com grande aparato e efeitos especiais, adereçados com o cartaz de Bush -adorado como o enviado de Jesus na terra - com peluches como o tigre bebé que personifica a tentação, o pecado ("- Que para uma criança parece inofensivo") e o tigre grande, já crescido, que é mau, corrupto. E depois vem a vida, a defesa da vida. Abrem uma caixinha de veludo e lá dentro estão 4 ou 5 miniaturas de "crianças por nascer", “bebezinhos lindos que se tirou a vida”, "que podiam ser vossos amigos, estar aqui convosco mas não estão, porque os mataram". Passam os bebezinhos pelas mãos das crianças que choram desalmadamente e gritam, erguem os braços a dizer "no abortion, no abortion". Aceitam as tiras de fita adesiva vermelham que os adultos lhes colam na boca, fita essa onde se lê "life". As crianças gritam, choram e sofrem, embarcando num enorme circo montado para formatar mentes moralistas, sem qualquer individualidade, sem qualquer questionamento, porque são enviados de Jesus. Até para dançar. Só se pode dançar, diz uma das miúdas documentário, quando temos Jesus dentro de nós. Às vezes também dança quando ele não está com ela, mas não deve fazê-lo, sussurra. Sussurra o que Jesus lhe sussurra ao ouvido, ou que Jesus sussurrou no ouvido materno.

"Jesus Camp" é um poderoso documentário. Levanta inúmeras questões, mas a que achei curiosa, e por isso, falo dele aqui, tem haver com uma reflexão feminista que assistimos há algum tempo dentro do discurso de algumas activistas e associações feministas. Há uma tendência para se considerar os movimentos de mulheres de direita católicos como não feministas. Há inclusive associações, por exemplo, as Mulheres em Acção, que se consideram feministas. Feminismo que obviamente não é igual ao nosso, nem ao de todos os movimentos pelo SIM. E logo, desconsideramos esse tipo de feminismo, não o vendo como tal, e no discurso feminista main-stream, não lhe damos muita importância. Ora, aqui é que considero que há uma falácia no tal discurso reflexivo feminista que temos vindo a assistir. Feminista ou não, o certo é que estes movimentos estão a crescer massivamente e ao contrário da maioria dos movimentos de Esquerda, têm recursos, poderosos e eficazes recursos. Aliás, os "bebezinhos” que circulavam de mão em mão nas assembleias do "Jesus Camp", eram iguais aos que os meninos e meninas betinhas nos impingiam na rua Garret, durante a campanha do referendo. Assim como a “vida”, “o direito da criança por nascer”. Ainda que ache que foi este tipo de extremismo que prejudicou, em parte, toda a campanha do “NÃO”, de qualquer modo, muito pouco me espantaria, que um dia, assumam ainda mais o seu fanatismo, e em vez do cordão humano de mãos dadas contra a IVG - passassem a andar de fita adesiva vermelha com a “VIDA” na boca, tal como as crianças de “Jesus Camp” de fita na boca e lágrimas nos olhos, à frente do Capitólio.



Nota: "Jesus Camp" repete dia 22, 2ª, às 22.30, no Cinema Londres (sala 2). Todos os filmes que passam no Doc Lisboa, das 11 às 21 horas podem ser vistos - gratuitamente - na videoeteca da Culturgest.

- Barriguita

Doc do dia

"Convicções",
hoje às 16.30, na Culturgest, Grande Auditório
(repete amanhã, no Londres, às 14 horas)






Convicções [P]
de Julie Frères
55´Portugal/França 2007

Em Fevereiro de 2007, os Portugueses foram chamados a votar pela ou contra a despenalização do aborto. Partindo do quotidiano de quatro mulheres de convicções totalmente opostas, o filme segue de perto a campanha do referendo, nos bastidores, na rua e nos media.


- Barriguita

Doc do dia

"These Girls",
hoje às 20.30, no Cinema Londres,
sala 2
(repete 4ª, dia 24, às 14.30 na Culturgest,
no Grande Auditório)




These Girls [CI]
de Tahani Tached
66´ Egipto 2006

Estreado no festival de Cannes 2006, "These Girls" leva-nos até ao universo das raparigas adolescentes que vivem nas ruas do Cairo. Estas mulheres, crianças ou mães - e por vezes tudo isso ao mesmo tempo - desafiam diariamente os mais variados perigos e preconceitos sociais.
As ruas e os jardins onde dormem são um universo de violência, medo e liberdade. As protagonistas expõem as suas emoções e surpreendemnos tanto pela força de carácter, como pelo sentido de humor. Têm sempre de se proteger dos rapazes que também vivem na rua, dos homens, da polícia, da família, das instituições e ganham pouco o nosso respeito. Apesar de se saberem marginalizadas, tentam viver cada dia como uma festa.

- Barriguita

18.10.07

Doc do dia

"Enemies of Happiness",
hoje, às 22,
no Grande Auditório da Culturgest
(repete também sábado, às 14 horas, no Cinema Londres, na sala 2)




Enemies of happiness [VN]
de Eva Mulvad
58´Dinamarca 2006

Malalai Joya, uma mulher afegã de 28 anos, é candidata às eleições da assembleia nacional afegã. Trata-se da primeira eleição parlamentar democrática no Afeganistão em 30 anos. Rodeada de seguranças, a candidata tenta defender as suas ideias políticas apesar de ter sobrevivido a quatro tentativas de assassinato e receber constantemente ameaças de morte. Ao longo da campanha, encontra-se todos os dias com mulheres que lhe fazem parte da sua vida e das suas dificuldades diante da câmara. Um retrato único das condições de vida no Afeganistão, destruído pela guerra, e onde as tradições têm ainda um peso determinante. Como pode a democracia vingar num país onde os votos são comprados e onde as mulheres não têm condições para votar livremente? Um filme que nos recorda que a democracia não pode ser imposta pela simples presença de diplomatas e de soldados ocidentais. Vencedor do Grande Prémio do Júri no Festival de Sundance em 2007.




- Barriguita