6.11.06

Carta a Zita Seabra

Há frases que ficam na história. Há grandes momento televisivos.
Zita Seabra conseguiu fazer "um dois em um", no último programa "Prós e Contras", com a grande afirmação "hoje em dia ninguém sabe o que é uma agulha de croché".
O Colectivo Femista resolveu escrever-lhe. Não podíamos deixar passar ao lado os seus 5 minutos de fama.

"Lisboa, 1 de Novembro de 2006

Cara Dr.ª Zita Seabra

Vimos por este meio saudá-la pela sua brilhante prestação naquele que é o maior programa de debates sérios e esclarecedores da nossa televisão, o programa “Prós e Contras”, no qual participou, na passada segunda-feira, dia 30 de Outubro.

Não poderíamos ficar indiferentes à sua prestação tão elucidativa sobre por que razão não concorda com o novo referendo sobre a IVG.
Como bem explicou, o Portugal de 2006 nada tem a ver com o Portugal de 1984, onde não havia planeamento familiar, nem informações sobre os métodos contraceptivos. Como referiu, hoje até já se tem a pílula do dia seguinte e consultas de planeamento familiar.
Embora tenhamos ficado algo confusos/as com algumas outras declarações que prestou no dito debate como, por exemplo, que ligou para o Centro de Saúde de Vila Franca e só conseguiria consulta em Dezembro, ou que as pílulas mensais não são gratuitas e nem sempre estão em stock nos Centros de Saúde - o que pode levar o telespectador a considerar que a Dr.ª Zita caiu em alguma contradição, pois ainda antes tinha afirmado que o planeamento familiar está acessível a todos, e que todos estamos – felizmente, haja Deus! – bem informados sobre contracepção. Mas pronto, sabemos que quando se vai à televisão, com tanta gente a ver, com público na sala, isso afecta a nossa prestação e discernimento, ganhamos um nervoso miudinho, e nem sempre nos expressamos da melhor maneira; porque errar é humano, e sabemos que a Dr.ª Zita como “pessoa humana” (termo que aprendemos nesse esclarecedor debate, ainda que o conceito não tenha sido desenvolvido por si) não é uma excepção, e alguns erros deve ter cometido na sua vida. Como, por exemplo, e não leve a mal por (apenas e somente a título de exemplo, falar de factos da sua pessoa que todos os portugueses conhecem – porque os portugueses são informados, lêem revistas e jornais, afinal no Portugal do século XXI a informação já chega a todos, já não existem assimetrias, nem clivagens sociais) referir que na sua juventude política a Dr.ª até andou a brincar aos revolucionários de esquerda, mas, pronto, isso depois passou. Sabemos bem que quando se é jovem, faz-se coisas sem sentido, como talvez torcer por determinado clube de futebol, gostar de determinado actor só porque é giro, usar roupa de marca, apaixonarmo-nos pelas pessoas erradas, dormirmos com quem nos atrai – o que até pode ser perigoso, pois disso pode resultar, entre outras coisas, uma gravidez não planeada - mas não vamos por aí, porque isso é um assunto delicado, e até como a Dr.ª Zita explicou, hoje só engravida quem quer.

O que nos leva a escrever-lhe é que a Dr.ª Zita mostrou alguma indignação aquando do discurso da Dr.ª Odete Santos, por ela considerar que continuam a morrer mulheres portuguesas vítimas de aborto clandestino, em vãos de escada, com agulhas de croché. Como a Dr.ª Zita observou, “hoje ninguém sabe o que é uma agulha de croché!”. O que faz todo o sentido com a sua argumentação, porque afinal o Portugal de 2006 é um país moderno, com elevado poder de compra, onde os pais podem comprar roupa para os seus filhos em lojas e hipermercados, e fazer croché, tricot, bordar, coser, tem toda a razão, é uma coisa do passado, já ninguém o faz. Ainda que alguns discordantes possam apontar que o seu raciocínio possa estar um pouco desfasado, nem que seja porque até existe no nosso país do século XXI um Clube do Tricot, ou porque ainda prevalece nas escolas do 1º ciclo a disciplina de Trabalhos Manuais e de Têxteis, onde até se pode aprender esses ofícios do passado, ou ainda, e dizem, os mais pessimistas, - como os sociólogos, os antropólogos, os economistas, os historiadores – que Portugal, apesar de pertencer a um conjunto de países centrais e desenvolvidos, dentro da caixa forte que é a União Europeia, tem uma posição de periferia, aquilo que alguns analistas politicas designam de estar na cauda da Europa; nós nem vamos enveredar por esses caminhos.

No entanto, apresentamos uma preocupação. Como a Dr.ª Zita Seabra muito bem sublinhou, a pílula de dia seguinte vende-se em qualquer farmácia, todos sabem o que é e só custa 3€50. Mas, Dr.ª Zita, as tais agulhas de croché ainda se vendem em muitas lojas, não só na rua da Conceição, nas famosas retrosarias da Baixa lisboeta, como também nos hipermercados, nas lojas chinesas, e tantas outras que existem por aí. Veja lá que até naquele famoso shopping-center das Amoreiras (aliás o primeiro de Portugal, o símbolo do Portugal moderno e globalizado) ainda existe uma retrosaria onde, assim como em muitos outros estabelecimentos, pudemos encontrar uma série de modelos de agulhas de croché, de preços que vão desde os 20 cêntimos aos 3 euros. Num hipermercado, que nem vale a pena referir o nome, pois não queremos fazer publicidade, até tem uma promoção de “leve 3 pague 2”. Numa loja chinesa por 75 cêntimos compram-se 4 agulhas. Está a ver, muito mais barato que a pílula do dia seguinte.
É neste sentido que lhe dirigimos esta missiva. Porque não queremos que se atrapalhe novamente quando voltar a falar na televisão, porque sabemos que é uma deputada que conhece o país real, que se preocupa com as mulheres e não se pode enganar sobre as mulheres. Bem sabemos que como política anseia por um Portugal moderno e desenvolvido, mas há hábitos, como o coser, o tricotar, o fazer croché, que as mulheres ainda mantêm, não há que negá-lo. Isso não as desvaloriza, nem as torna menos ou mais modernas ou emancipadas. Até as mulheres mais novas, aquelas que, por exemplo, brincam ou sonham em ser estilistas, ou gostam de fazer lavores, ou ainda tem o privilégio de terem as companhias das suas avós, também estão familiarizadas com material de costura. Por fim, e com tanta oferta que existe no mercado, como pode ver pela amostra que gentilmente lhe oferecemos, é impossível afirmar que hoje em dia ninguém sabe o que é uma agulha de croché.

Em jeito de despedida e agradecendo a sua atenção, acrescentamos que bom seria que nenhuma mulher soubesse o que é uma agulha de croché, e melhor ainda, que nenhuma mulher a utilizasse para outros fins que não fosse o fazer croché.
Achamos que era isso a que se referia a Dr.ª Odete Santos. Não podíamos permitir que a Dr.ª Zita Seabra continuasse equivocada, no sentido de evitar enganar-se mais nos meios de comunicação social ou no Parlamento.

Caso queira ficar ainda mais inteirada sobre se as mulheres sabem ou não o que é uma agulha de croché é com o maior prazer que a convidamos, as vezes que quiser, a visitar o nosso blog: www.colectivofeminista.blogspot.com, onde poderá encontrar debate de ideias e projectos, até pequenos registo etnográficos e de sociologia da vida quotidiana, e chamamos desde já à sua atenção a estreia do vídeo “agulha de croché: mito ou realidade?”

Saudações paritárias e que o feminismo fique consigo.

O Colectivo Feminista"

a

8 comentários:

Yasmin disse...

esperemos que realmente a carta sirva para, pelo menos, a Drª Zita tratar de se informar sobre as questões antes de expor as suas opinioes como se de factos se tratassem... infelizmente, tenho algumas duvidas que isso aconteça... seja como for devo reconhecer que a carta está optima e com um bom sentido de humor...

cris disse...

Nem mais. Bem no ponto. Ainda trago atravessado aquele brilhante comentário feito por ZS aquando da Campanha Women on Waves em que se virou para o Pedro Vasconcelos acusando-o de não saber o que as mulheres pensam porque não ia a cabeleireiros. Valha-nos Deus.
Bela carta, mais uma vez. :)

Yoda disse...

Fizeram bem em escrever essa carta. As agulhas de crochet são uma questão curiosa, de facto. No entanto, o que eu acho significativo é que não ouvi menção em sítio algum a uma teoria que ela defendeu no fim do programa - qdo foi interrompida - que me deixou completamente de cabelos em pé...

Disse ela que existia, neste momento, uma firma que determinava o sexo do feto até às 8 semanas e, portanto, como o aborto era permitido até às 10......

Sinceramente, fiquei de olhos em bico e achei curisosíssima, apesar de tudo, a forma suave como a sala NÃO reagiu....

May the Force Be with You

Yoda

Cláudia Ferreira disse...

Realmente foi infeliz a Dra. Zita Seabra. Mas, apesar disso, não deixa de chamar a atenção para o facto do aborto ser "em Portugal cada vez mais químico e menos cirúrgico", pelo "que o número de complicações é manifestamente menor, a saber muito menos idas às urgências, infecções, hemorragias". Palavras de Miguel Oliveira da Siva, em Sete Teses Sobre o Aborto. O que não significa que eu concorde com Zita Seabra: muito pelo contrário. É por isso que vou votar SIM: "pela simples razão de que este sim permite o não, enquanto que aquele não proíbe o sim. Estabeleça-se o terreno livre e cada um construa nele o que entender" - palavras de Hélia Correia, que faço minhas. Aguardo o vosso vídeo: deve ser delicioso. Mas...não sejam muito más: sejam péssimas. Abraço.

sael disse...

Incrivel a sr.ª.
Curioso mas esta deve ser um clone da mesma Zita Seabra que eu ouvi e vi no parlamento em 81 ou 82 a defender o aborto contra um CDS bafiento do Coissoró. Estou boquiaberta abismada e nao fazia a ideia que um ser humano podia ser metamorfosico.

lux disse...

Respondendo, antes de mais, ao(à) Yoda, a sala reagiu, mais do que reagiu, eu e quem estava comigo fartámo-nos de reagir. Mas a produção não mostra.

Eu estive na assistência neste debate. Sentada na bancada do sim, mas, sinceramente, bem poderia sentar-me nas luzes.

Em primeiro lugar pelos convidados.
1 - A Edite Estrela, calada, esclareceria mais e melhor.
2 - A "sociedade civil" pelo sim era a CIDM (órgão tutelado pelo governo), as mulheres socialistas (portanto, membros do partido do governo), o secretário-geral da JS (portando a juventude do partido que está no governo), 12 deputadas do partido socialista (escuso-me a comentar), e uma - UMA - representante de um movimento cívico. O Movimento Pela Despenalização. Por mero acaso, a Fernanda Lapa (que é do Movimento Democrático de Mulheres e do Movimento Pela Despenalização) estava na assistência e foi chamada a intervir.
3 - A sociedade civil, do lado do não - essa sim - teve muito mais tempo de antena do que os outros.
4 - A produção não convidou os únicos dois partidos que propuseram a alteração da lei. Falo concretamente do PCP - que foi o primeiro partido a propor a alteração e o partido que apresenta sempre este projecto em cada sessão legislativa como o seu primeiro, e do Bloco de Esquerda - apesar de considerar que a defesa, por parte do BE, do referendo foi um passo atrás inacreditável.

Em segundo lugar, pela argumentação, ou melhor, falta dela.
O único que esteve verdadeiramente bem foi o Miguel Oliveira e Silva. A pobreza e desonestidade dos conceitos - porem uma pessoa com deficiência a dizer "Obrigada por me deixarem nascer" - e permitirem que ninguém respondesse a nada, deixando que o obscurantismo passe impune e o empobrecimento das discussões seja um facto, é demais.
Para não falar da postura da sra. Fátima Campos Ferreira, que no fim do programa, se juntou com os partidários do não e lhes disse, e passo a citar "vocês são tão lindos. quando crescerem vão ser tão felizes e ter tantos filhos". (sim, crescerem, porque a grande maioria devia ter 15-16 anos, recrutados expressamente para assobiar e bater palmas a mando do maestro).

O meu lugar nas luzes seria mais indicado porque a culpa de ali estarmos foi de quem se sentou na mesa e nas cadeiras da frente.

Porque votaram na realização de um referendo. Porque retiraram a comparticipação das novas pílulas. Porque não implementam a educação sexual nas escolas. Porque não garantem o acesso às consultas de planeamento familiar e encerram centros de saúde (as únicas públicas unidades que têm estas consultas). E porque dizem que não vão mudar a lei mesmo que ganhe o não com menos de 50% de pessoas a votar.

O meu lugar seria nas luzes porque não concordo com a afirmação de que só as mulheres pobres recorrem ao aborto clandestino. As dos "bairros de lata", they say.

Porque não concordo quando a Edite Estrela assume a possibilidade de retrocesso da legislação ao referir que "os deficientes têm direito a viver e 16 semanas se calhar é muito".
Porque não concordo com as 10 semanas.
Porque ninguém disse à Alexandra Tété (ninguém se chama isto) que se ela entende que as mulheres devem ser punidas e se ela recebe mulheres que fizeram abortos (e "chegam lá a esvair-se em sangue. Elas esvaem-se "- !!! - a senhora disse isto), então, e para ser coerente, deveria denunciá-las. Não o fazendo está a impedir que se faça "justiça". Ninguém lhe perguntou se ela acha que o melhor sítio para as mulheres se recomporem ou expiarem a sua culoa é na cadeia.

E ninguém disse porque não podia dizer. Porque pessoas como a senhora edite nada fizeram para que as coisas mudassem. E, ou muito me engano, não o pretendem fazer agora. Senão já teriam alterado a lei.

Por último, a zita, apesar de dizer "eu fiz, eu apresentei, a minha lei" (ela até diz que foi a espanha ajudá-los a fazer a lei), não fez, não apresentou, a lei não é dela. Um partido apresentou um projecto, que hoje é lei, é de todos e todas e para todos e todas e por isso precisa de se mudada.

Anónimo disse...

olhem que a teté também não sabe o que é uma agulha de croché! aliás, sabe nada que coisa nenhuma e expressa-se como tal. Volta Badaró!

Anónimo disse...

"COLECTIVO FEMINISTA" o que é que isto quer dizer?